Jamaica: O artista

Jamaica: O artista


*Alerta textão*

Entre as muitas vozes do mundo, às vezes não conseguimos ouvir o som da nossa. E gritar custa muito, dores que trazem violências ao nosso corpo, e assim vamos plantando sementes e árvores, que se transformam em doenças profundas.

Começar um texto assim, talvez faça você entender o que poderia ser anos de abusos, não esses que são visíveis, mas esses que nos criam todos os dias, sejam com caixas reais, ou de mentiras.

As vezes esses sentimentos ficam guardados tanto tempo dentro da gente, que explodem, com um pouco de carinho…ou com um pedaço de papel. Quis explicar isso para contar um pouco da história de Jamaica, seu nome conhecido, ou melhor dizendo: não será seu nome artístico?

Alexandre Ramos Jamaica Batista, com 46 anos, nasceu em São Paulo, na Favela do Sapé, no Rio Pequeno, e representa muito do que acredito. Lembra que falei que era contação de pessoas? Essa específica, terá o meu olhar, mas nunca deixará de ser a história do Jamaica.

Eu já estou algum tempo no Instituto, e com toda efervescência que tenho, depois de uma conversa ali e outra aqui, decidi contar as histórias das pessoas nesse blog. Sempre amei blogs, já tive milhares, fora que amo escrever. Algum tempo atrás, vivia elaborando histórias de mentirinhas para pessoas no metrô. Tinha o costume de sentar e ficar horas imaginando como seriam suas vidas.

Quando levei o projeto para o Instituto, no começo, percebi muita animação, mas os nomes não chegavam até minha mão, fui ficando um pouco preocupada. Pensei: de onde afinal virão essas histórias? Até que um dia reforcei em um grupo de WhatsApp e pimba: a mensagem veio! Era Rodrigo avisando que tinha uma história incrível para contar! Que o Instituto tinha um artista, para eu ir ao domingo. Agendamos. Mas por infortúnio de minha agenda, e de todos os demais, deu ruim! Mas vamos lá a uma nova tentativa.

Em um domingo, meio nebuloso, entre o frio e a chuva, eu apareci. Mas mesmo com esse temporal que parecia tímido e pintava sua cor no céu, eu não tive medo de enfrentar o dia. Chegando, vi as “minhas” crianças do sábado (sim, eu sou estagiária de psicoterapia) sentadas no chão. Tinha uns rostos novos, contudo. Mas ainda assim, pessoas conhecidas, as perspectivas estavam diferentes, mas ainda o sabor quentinho da delícia de fazer esse trabalho continuava.

Olhei para os lados e nada do Jamaica. Pensei, será que ficou tímido? E decidiu não aparecer? Eu confesso que não estava nos meus melhores dias, de alguma forma estava um pouco doente, por dentro e por fora, nem podia estar ali. Mas a minha ansiedade era tanto por aquela conversa. Foi quando ele chegou, já tinha visto em foto.

O artista chegou super agradável, cumprimentando todo mundo, falou comigo e estava empolgado. Mas logo me avisou: primeiro vai ser o desenho, depois a gente conversa!

E foi assim, fiquei com “minhas” crianças, desenhando, curtindo, mas não me esquecendo de observar. Eu que não sou boba nem nada, e tenho uma mania abusada, comecei a fotografar ele desenhando tudo. Mas juro que não era vaidade, mas tenho uma coisa em mim, gosto de fotografar com a ideia de congelar imagens, para nunca mais esquecer o sentimento que vivi. E foi bem assim.

Passou alguns minutos, entre rabiscos e outros, eu vi que ele desenhou uma Branca de Neve. Eu logo observei que não era qualquer princesa, seu vestido tinha curvas como um vai vem dos rios. As plantas pareciam como explosões de emoções à flor da pele. Lembrei de Nise: “A criatividade é o catalisador por excelência das aproximações de opostos. Por seu intermédio, sensações, emoções, pensamentos, são levados a reconhecerem-se entre si, a associarem-se, e mesmo tumultos internos adquirem forma”. – Sem querer a médica traduziu tudo para mim.

O artista do Instituto é um impressionista, como o famoso Monet, e traz detalhes da natureza para os seus desenhos. É bastante empolgante ver e decifrar. Quem gosta de arte, como eu, é um prato cheio!

Jamaica terminou, brincou, comeu e disse, estou pronto! Eu olhei para ele, me sentei e comecei a gravar. Não pude não pensar o que tudo aquilo representava para mim, começava ali um abraço, meu na história do artista.  Nesse instante, eu precisava predispor respeito.

Toda história é única. Tudo tem sentido quando se fala no eu, e no eu dele. Olhei para o Jamaica, e logo pensei: não será uma história fácil, mas tenho certeza, que ainda terá luz, como os olhos dele que brilhavam para mim. Olhei a máscara do meu entrevistado de Bob Esponja, abduzi sua energia, suspirei: vamos lá! Estou pronta para viver esse lindo universo que é a vida desse artista.

Para iniciar, eu fui direta e perguntei para ele como a arte se deu em sua vida. Jamaica disse que arte começou em sua vida aos 14 anos, quando ele desenhava a Turma da Mônica, o Bidu.

“Depois que eu comecei a fazer os desenhos, eu não parei mais.” – conta nosso artista.

 Já o Instituto, nosso artista conheceu em 2002, quando chegou ao Bom Retiro. Ele chegou a frequentar outras oficinas, inclusive, ressaltou a amizade de muitos anos com Sr.Antônio (O mito do Instituto).

“Esses trabalhos que vocês faz comunitários, eu gosto muito, é um incentivo para ocupar mente, e todo domingo nóis tá aqui dando esse incentivo. Porque a obra de arte é uma obra. De repente, pode sair um artista daqui.” – ressaltou Jamaica (sic).

 Jamaica não é só um artista, mas um incentivador, como ele mesmo gosta de se nomear, já que desenha motivando as crianças e deseja que saia dali um grande talento.

Uma coisa chama a outra, muitas pessoas vê eu pintar. (e falam:) Eu também vou pintar! Também quero fazer pintura! O quê, moleque, faz um desenho aê! Daí quer dizer, pode vê, hoje, todo domingo a molecada tá aqui: ôh tio Jamaica! Porque eles vê eu fazendo desenho. Eu quero incentivar eles, porque eu comecei desde pequeno.” – conta Jamaica (sic)

“Eu agradeço a você e todas a suas equipe, porque vocês poderia tá de domingo na sua casa com sua familiares almoçando e jantando, mas, não, vocês estão aqui, dando apoio e incentivo, pois porque se você não estivessem aqui dando todo apoio e incentivo todo domingo aqui, o que seria de nóis? Em termos de que, o cara ia catar marmita aqui e ali, ia para o bar tomar uma cachaça e para praça jogar dominó e jogar baralho, tomar uma cachaça. Ele não ia ter nenhum incentivo, aqui tem ele tem um negócio para fazer.” – elucida Jamaica (sic)

Além dos desenhos, ele faz verdadeiras obras de artes nos azulejos, e se orgulha, aliás, de muito delas. Aliás, seu trabalho já têm fãs, pessoas que passam sempre na rua, ficam admirando e até guardam seus desenhos como prêmios.

Hoje, ele mora na Rua Jaraguá, perto do 2º DP, no Bom Retiro, e enfatiza que não é uma casa, é na calçada, pois já tentou viver em albergues e não gostou.

“Já tenho meu lugar reservado, meu canto.” – Enfatiza Jamaica.

“Os caras fala que é maloca, nas gírias do cara né? Mas não é maloca. Inclusive, tenho o meu colchão, tenho os meus corbetôr lá, tenho minha lona lá. Então eu gosto de viver sozinho. E durante a semana, nóis trabalha com a reciclagem né? Nóis, pega latinha, pega papelão, pega pet. Pra nóis tá sustentando nossos vícios, né, mano? Porque você não vai ficar pedindo para um e para outro, você não vai roubar, né, mano? Você não vai traficar, né? Oportunidade para tudo essas coisa nóis tem! Nóis não vai fazer isso né? Convite é que não nos falta.” – conta Jamaica.

Recentemente, eu fiz um curso do SUS e descobri uma coisa bem diferente do mito que se expande por aí. O conteúdo trazia informações da Pesquisa Nacional/2008 e Pesquisa Ipea/2020, que explicam que a população em situação de rua é composta, em grande parte, de trabalhadores. Sim, cerca 70,9% exercem alguma atividade remunerada. ​Ainda o estudo trazia que dessas atividades destacam-se: catador de materiais recicláveis (27,5%), flane- linha (14,1%), construção civil (6,3%), limpeza (4,2%) e carregador/estivador (3,1%). ​

Vale ressaltar que o estudo afirma que apenas 15,7% das pessoas pedem dinheiro como principal meio para a sobrevivência. Ou seja, a minoria que mora da rua não tem atividade trabalhadora, o que derruba o mito dos “preguiçosos da rua”.

​A mesma pesquisa ainda deixa claro que a maioria dos moradores de rua tem profissão, ao todo 58,6% dos entrevistados afirmaram ter alguma profissão. Inclusive, como Jamaica, que antes de estar na rua, era pintor.

O nosso entrevistado avisa que gostaria de voltar a trabalhar, mas falta oportunidade para ele exercer sua antiga profissão e elucida que o preconceito impede que haja algum tipo de contratação diante a sua condição. Ele ainda explica que seu sonho era ser artista plástico.

“As vezes têm pessoas que vê cara, mas não vê coração.”– alerta Jamaica.

Durante a entrevista, Jamaica confirma que é viciado em álcool e que o trabalho ajuda a sustentar seu dia a dia e vício. O artista explica que começou a beber e fumar maconha com 14 anos, por meio de incentivo de amigos em festas.

A história de Jamaica não é muito diferente dos motivos de outras pessoas pararem nas ruas. Segundo uma pesquisa feita em São Paulo, pelo Censo da População em Situação de Rua, em 2020, hoje 85% da população de rua é formada por homens, e 70% de negros. Essa mesma pesquisa indica que o motivo que as pessoas vão parar nas calçadas, são morte de parentes, brigas entre familiares (50%), problemas de saúde (5%), como depressão, dependência de drogas (33%), perda de moradia (13%) e falta de trabalho (13%).

Jamaica me contou que teve muitos problemas com relacionamentos. Em média, ficava cinco anos com uma mulher e acabava finalizando o enlace. Foi assim, antes de chegar às ruas. Ele brigou com sua esposa, a qual vivia um relacionamento de cinco anos, em Cidade Tiradentes, decidiu largar tudo e nunca mais voltou. Inclusive, o nosso artista só pegou os documentos, um cobertor e a roupa do corpo quando se retirou de seu lar, vindo direto para o Centro de São Paulo.

Os motivos das brigas foram o excesso de álcool e drogas usado por Jamaica, ele estar desempregado, ela sustentar a casa, além dos embates constantes dos dois, inclusive, um deles, ele alega ter sido esfaqueado.

Sua infância também não foi fácil, sua mãe não podia cria-lo e nem suas irmãs, matriculou-o em um colégio interno chamado Asas Brancas, em Taboão da Serra. O artista avisou que não ia muito bem na escola, e que repetiu a 1º série (Anos mais tarde, repetiu a 5ª série também), e que era muito bagunceiro. Contou que parou seus estudos no 1º colegial do Ensino Médio, afinal, tinha que trabalhar e sustentar a família. Jamaica explica que gostaria de voltar a estudar.

​Ao finalizar a entrevista, em tempos de pandemia, abraço está proibido, mas eu não aguentei, mesmo doente, logo, eu, a dona do calor humano, eu abracei o Jamaica, abracei foi muito. Na minha cabeça vieram questões, como: quero de alguma forma salvá-lo. Sem entender como um rapaz com tanto talento, poderia chegar a esse quadrilátero. Fiquei cheia de ideias, malucas, feias e minhas. Pensei em falar com pessoas. Ser a Superwoman. Nessa hora me chateei muito comigo, porque eu queria dar o meu sentido àquela vida, que de verdade, já tem um sentido enorme, ele é uma estrela brilhante, lembrando que o mundo que queria dar é meu, e talvez não seja uma escolha dele. O que me inspirou a escrever outro texto.

Nunca vou me esquecer do Jamaica, ainda quero um presente dele e vou pedir! Esse artista me deixou muitos ensinamentos, sobre talento, meritocracia, vida, dificuldade, ser homem e tantas outras coisas. Queria agradecer a ele, por ter me contado sua história e ter deixado eu entrar em sua vida, de um jeito que me marcou, e ainda deu significância ao ser humano, a acreditar que toda vez que passo por alguém na rua, essa pessoa tem uma história e uma vida, e principalmente, um talento.

Obrigada Jamaica!

*Decidi não corrigir as falas de Jamaica, e tentei deixar o mais fiel possível, isso não apenas como símbolo de respeito, mas de que é sua identidade e modo de ser.

*Gente, foi tão bacana, que foi muito além que um texto de blog! Desculpem!


Aline Sampaio

porAline Sampaio

Eu amo escrever e muito mais pensar sobre a vida. Sou mil em uma. Para começar, sou jornalista e escrevo no blog Eu Vi, Comi e Me Diverti. Estudo Psicologia na FMU e ainda sou voluntária no Instituto Construir.

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